Agradecimento!
Hoje prá escrever, meu lado mineiro tem que tá sorto dentro de mim.
Me alembro como se fosse hoje, quando meu cumpadi e primo Edis(é assim que a famía o chama)recém chegado da capital, foi fazê uma visitinha prá minha mãe, nessa época eu tinha terminado a oitava série e na minha cidade não tinha mais recurso de estudo. Pois bem nessa conversa estava traçado o meu futuro. Ele chegou prá minha mãe e disse disse: Titana( o nome da minha mãe é Sebastiana, mas como mineiro gosta de encurtar as palavras, em vez de tia Tiana, Titana) como a Sra já sabe, tô morando em belorizonte, e como o Marcio acabou a oitava série, se a Sra. quiser ele pode ir morar comigo. A Sra. num se preocupe, Ele terá o mesmo conforto que tem aqui, já estou estruturado, a minha casa tem até empregada, vai ser mío se Ele for prá capital comigo, lá tem mais recurso, Ele pode estudá e trabaiá. Depois dessa conversa a minha mãe ficou mais animada e disse prá mim: fio arruma a mala, que ocê vai morá na capital com seu primo, não se preocupe já conversei com meu sobrinho e ocê vai ficar bem. Eu coração partido, mais confiante no futuro que me aguardava, arrumei as coisas e fiquei pronto. Prá essa viagem o melhor terno de roupa:uma camisa de tergal laranja, carça boca de sino azul marinho e um sapato plataforma, traje de festa mesmo. Janeiro de 78, numa tarde de sol, embarquei no ôinbus das duas prá paracatu e depois às dez da noite, rumo a capital. Cheguei de manhazinha, por volta das seis horas. Nunca tinha feito uma viagem tão cumprida, lógico que passei male no ôinbus, sempre tive o istambo meio fraco. Rapaz quando eu desembarquei ví aquele mundaréu de gente, fiquei muito assustado. Eu que pensava que a festa da lapa era que tinha gente. Eu já tinha visto arreunido assim era muita vaca, boi, cavalo, porco, galinha, passarin. Carro prá tudo quanto era lado, e não era de boi. Na minha cidade o horario dos pôcos carros que existiam, era programado, ocê sabia a hora que argum fazendeiro chegava da roça, ou horário do ôinbus que passava na cidade. Eu com minha mala de pau, minha matula, coisa poca: pão de queijo, chimanguim, um queijo e uma rapadura, mineiro gosta de fartura(ainda bem que eu levei, ocêis vão entender mais prá frente). Fui rompeno atrais do meu primo, cum medo danado de me perdê. Imagina eu crú de tudo, num conhecia telefone, elevador, escada rolante, tv a cores, rádio só AM. Num sabia abrí a boca prá pedir uma informação, tava entrando num mundo que era novidade prá mim. Cansado da viagem, as mão doeno de carregá os trem, os pé inchado, num tava acostumado a ficar carçado tanto tempo, doido prá chegá no palacete com empregada do meu primo, arriá as coisas e descançá. Depois de uma boa caminhada nóis chegou. Quando eu dei de frente prá situação, sabe quando fio chora e a mãe não vê? O trem era só um quarto, um porão, chão batido, cinco beliche, eu era o décimo. O colchão de mola, só que véio, ocê tinha que arrumá um espaço nele prá dormir, porque as molas ficava te cutucando a noite inteirinha. E quando a dona inventava de lavá a casa, a água vazava por entre as tabas, era um moiaceiro danado. Fugão tinha sim, duas boca, só que uma não funcionava, isso quando tinha alguma coisa prá fazê ou quando tinha gais. Não passei fome não, passei necessidade de cumê, é diferente. No armoço as veis nóis tinha arroz, farofa, ou um ovo, um doce, um biscoito, nunca tudo reunido, ou uma coisa ou outra. Na janta as veis um pão, quando tinha margarina e ksuco, aí já era festa. Agora ocê entende o valor da matula que eu levei comigo. Nos primeiros seis meses, todo santo dia eu ia na rodoviária e falava comigo: hoje eu vorto. Ainda bem que eu não vortei, Deus me amparou e segurei firme nas pontas. Mais no domingo era bão, nóis lavava a rôpa, fica ali um poco de môio, proseano, matutano onde nóis ia pegá a bóia. Geralmente era na casa dos Quintino, lá tinha muita fartura, nóis comia que dava prá semana inteira.
O tempo foi passando, o trem foi ficando mió, eu já tinha um emprego, nóis mudou prá um quarto bem maió, todo mundo arreunido. Nóis nunca morô em casa com divisão, nunca teve televizão, gostava mesmo era de jogar conversa fora. Todo mundo era da mesma cidade e sempre cabia mais um. Nóis já comia na pensão, armoço e janta. Eu já tava mais inteligente prá lidá com as coisas. Terminei o segundo grau, não dei prosseguimento, porque os cobre não dava.
Quer saber, mesmo com dificuldade, depois do costume, a vida era uma festa só. Nóis tinha a alegria estampada no rosto, juventude saindo pelos poros. Vontade de vencer na vida.
Esse causo, verdadeiro, é um agradecimento ao meu cumpadi Edson, que teve a coragem de me tirar debaixo da barra da saia da minha mãe e me apresentar o mundo como ele é: com todas as suas verdades. Me deu a oportunidade de sair de Guarda Mor, do meu mundinho, eu pensava que depois da serra que rodeia a cidade não existia mais nada, só paracatu e vazante e conhecer coisas diferentes. Me deu a oportunidade de formar o meu caráter, de escolher o que eu queria prá mim. Aprendi a dar valor numa grande amizade. Aprendi a não esquecer, esconder o meu passado, pois é alavanca do meu futuro. Aprendi que não se deve gastar tudo que tem, tem deixar um poquim prás horas difíceis.
Eu termino, e ocêis num pode vê, mais tem uma lágrima escorreno no canto do ôio, e tem nome: gratidão! agradecimento eterno. Grande abraço cumpadi Edson.
Marcio Pereira
domingo, 31 de maio de 2009
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ÔÔÔÔ!!!!! Marcinnnh!
ResponderExcluirQue lindo, que coizzz quiridddd!!
Isso é assim, louco de especial, por sua singeleza e tbém um ato demonstrativo de um sentimento raro hoje, gratidão... reconhecimento!!
Bjão procê e saudade!
P.S. O Vicente tá dando canseira pra nascer, acho q vai ser só com 10 meses e meio!
Eita, mai esse minero já era bão na prosa falada e agora tá bão na prosa escrita também. Gostei de ver (e ler tudim). Avise quando tiver novos causos pra gente acompanhá, aliás, ocê podia contá o causo dos quatro fiat 147, quando tava aprendendo a guiá carro sem boi, haha. Abração do amigo Luís Couto.
ResponderExcluirQue bão cumpade que ocê tirou a caneta do borso! Escreva mesmo sobre o passado: isso vai te iluminar ainda mais este presente maravilhoso que Deus te deu.
ResponderExcluirGrande abraço e estamos juntos na estrada!
eita cumpadi. to inté matutando sua cara iscrivinhando esses trem!
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